quinta-feira, abril 08, 2010

Futebol no Mundo (ou nem tanto...)

Pelas semifinais do Campeonato Mineiro, o Atlético-MG contou com a sorte (e uma mãozinha do juiz) para eliminar o Améria-MG. Coisa de doido, todo bom cruzeirense queria o América na dianteira. Tinha até uns amigos meus comentando "já pensou se o América tira as frangas? Acho que o Cruzeiro poderia até entregar para o Uberaba e tava de boa: a gente nem precisa desse título mesmo!". É, odeio concordar, mas com um calendário que não mais permite ao time disputar a Libertadores e a Copa do Brasil, de que vale ganhar o mineiro?

Vale dizer que a Copa do Brasil dá menos grana que a Libertadores... é impressionante, mas é a mais pura verdade: a Copa do Brasil gera menos renda que o Campeonato Mineiro:

"Maluf revelou que o Cruzeiro faturou R$ 7,5 milhões brutos na última edição do Mineiro, incluindo-se rendas, cotas de televisão e placas de publicidade. 'É quase a metade do que o campeão da Libertadores fatura. E é bem mais do que se ganha na Copa do Brasil'." ¹

Sete milhões e meio de reais por um torneio que dura 3 meses... não me parece pouco! Então, por que diabos os clubes relegam tanto o estadual? Por que é que os jogadores dizem que "a motivação é diferente quando é um jogo de Libertadores", se o que garante os salários deles é o estadual? Vale dizer que, nos últimos 10 anos, a melhor colocação do Cruzeiro na Libertadores foi o vice-campeonato do ano passado, e em outras oportunidades passou foi longe disso! Resultado: o que segurou a renda do clube foi o estadual, que ganhamos repetidas vezes na década.

Então, permanece a pergunta: por que desmerecer (ou mesmo vilanizar) o estadual?

Não creio que seja um único fator. Primeiramente, temos os jogadores de futebol, que realmente não sabem colocar um valor real ao exercício de sua profissão. Traduzindo, eles não sabem o quanto vale o espetáculo que proporcionam. Sim, eles tem noção de visibilidade, de exposição à mídia, mas isso é apenas porque todos eles querem ser vendidos para o exterior, pois essa é a marca de sucesso de sua categoria. E não há nada mais distante da Europa que os estaduais. Não, não importa que seja o campeonato estadual quem garanta ao jogador a possibilidade de amadurecer, de conhecer condições difíceis de jogo (campo pequeno, estádio do tipo "alçapão", gramado ruim, viagens demoradas, etc), nem mesmo que, como já dito, sejam os estaduais que financiem seus salários. Do estadual, todos só querem uma coisa: sair o mais rápido possível.

Após os jogadores, temos a visão dos dirigentes de futebol. Esses, me desculpem, mas eu não me atrevo a tentar explicar.

Temos, por fim, a mídia. Sim, a mídia, a TV, as rádios, os jornalistas/cronistas esportivos, aquelas pessoas que decidem o que é que você assiste, quando assiste e por que assiste. Que comentam a vida dos jogadores, e não os resultados das partidas. Que te dizem qual é o peso desse ou daquele jogador de um time do Eixo do Mal, ou da dancinha de um outro jogador, ou mesmo da bronca que ele deu na filha, mas não sabem dizer quem lidera o Campeonato Pernambucano. Sim, essas pessoas não tem um compromisso com o futebol, mas sim com sua audiência... e sua audiência é baseada no Eixo do Mal. Só isso justifica, por exemplo, transmitir jogos do campeonato paulista para MG, em dias de jogos do nosso estadual. Ou da não transmissão de jogos de outros estados fora das regiões Sul e Sudeste. Ou o foco do noticiário nas competições estaduais (do Eixo do Mal) enquanto há times jogando a Libertadores e merecendo maior atenção, justamente por se tratar de uma competição internacional. Assim, interessa e estas pessoas diminuir o valor dos estaduais (seja por criticá-los abertamente, seja por apenas deixar de comentar acerca de sua existência), de maneira a sobrevalorizar o que acontece no Eixo do Mal.
 
Outros fatores existem, mas... creio que esses sejam os fundamentais. E não, a torcida não é um fator, porque o torcedor vai a qualquer jogo, que valha qualquer coisa, de qualquer competição, desde que a) o ingresso seja compatível com o seu orçamento, e b) o jogo ocorra em um horário digno, com segurança, conforto, e que efetivamente valha por algo. Quer resolver a vida do torcedor? Dê a ele 30 jogos do seu time do coração por ano para assistir, em que cada jogo valha por alguma coisa.
Sério, futebol se joga de canto a canto desse país, em estaduais. O Campeonato Brasileiro, em larga medida, é uma ilusão, um torneio de grife, de méritos econômicos e não necessariamente de melhor futebol. Uma competição cujo foco é a exposição dos jogadores ao mercado europeu. Muitos desses jogadores são apenas pernas de pau glorificados, os melhores dos medíocres. Isso explica, e muito, o São Paulo tricampeão. Cada futebol tem o campeão que merece.
 
A Copa do Brasil nos dá um lampejo desse "futebol brasileiro" tão difícil de se observar. Justamente porque ela contrapõe estados, e não patrimônios. Nos estaduais, ficou comum que os pequenos leiloem seu mando de campo, repassando a vantagem da torcida ao seu adversário; isso é inimaginável na Copa do Brasil: um time do MT não abre mão de jogar no seu estado, o mais próximo possível de sua torcida, mesmo que ele ganhe muito dinheiro. O mesmo vale para um time do AM, de RR ou RO (Qual é qual?). Isto é "futebol brasileiro": um contraponto de estilos, de sociedades, de regiões, muito além dos valores dos passes, desculpe, dos direitos federativos dos jogadores e de seus salários. É entrar e tentar vencer o jogo. Na raça, na habilidade ou na malandragem. Não necessariamente nessa ordem.

E isso tudo, de melhor e de pior, só se tem nos estaduais. Só assim para meu Cruzeiro bicampeão da Libertadores ter a oportunidade de jogar no Pontal do Triângulo (Ituiutaba), ou no Vale do Aço (Ipatinga), na Zona da Mata (Juiz de Fora) ou mesmo aqui pertim mesmo (Nova Lima), e mostrar aos seus jogadores, veteranos e novatos, como é jogar em gramado duro, com torcida colada no gramado, em campo pequeno e contra toda uma (pequena e barulhenta) multidão. São lições de vida, que certamente serão aplicadas em competições maiores, se não por uma repetição do quadro, certamente por uma perspectiva (e uma lembrança) de como as condições poderiam (e já foram) muito piores. E de como eles chegaram longe em suas carreiras.
 
E.