sábado, julho 11, 2009

Eu e o RPG

Não sei se já disse aqui, mas comecei a jogar RPG em 1995, com o First Quest. Naquela época, o RPG era um ilustre desconhecido de tudo e de todos, a White Wolf tinha acabado de lançar Vampiro: A Máscara e a Wizards of the Coast ainda operava no porão da casa do Peter Adkinson. A TSR comandava o cenário mundial há pelo menos uma década.

Meu primeiro personagem foi um elfo guerreiro/mago. Eu fui o último a chegar na sessão de jogo, e só tinha duas escolhas de personagem: o elfo ou um humano mago. O humano mago tinha 4 pontos de vida, atacava com uma adaga e fazia uma magia. O elfo tinha 7 pontos de vida, atacava com cajado ou arco e também fazia uma magia. Eu decidi pelo elfo.

Meus finais de semana foram direcionados àquele jogo, muitas vezes em detrimento dos meus estudos (eu fazia curso técnico na época, com aulas de manhã, tarde e começo da noite, e só tinha como horários de estudo e de descanso os meus finais de semana). No fim das contas, creio que foi uma boa troca, porque sem o RPG eu teria me distanciado de ótimos amigos. Amigos que, hoje, eu nem vejo tanto, mas com os quais eu criei laços mais duradouros: sou o padrinho de casamento de um deles, por exemplo. O mundo atual tem disto: você não tem mais tempo de encontrar-se com as pessoas que realmente gostaria, e isso compromete amizades mais duradouras. Somando-se a amizade prévia, o RPG permitiu que aquela amizade entrasse já em sua segunda década. Não é o tipo de coisa que se vê todo dia, ou em toda vida.

Mas, por mais que eu goste muito daqueles caras, eu não estou escrevendo aqui para falar deles. A ideia aqui é falar de como o RPG me ajudou com uma outra coisa: a capacidade de tolerar (e superar) adversidades.

Eu acabei por reprovar meu terceiro ano, fiquei para trás. Meus pais, até hoje, acreditam que era porque eu jogava muito RPG... nem era, nem estava jogando na época. E aquela reprovação foi algo bem mais pessoal: se criar coragem, qualquer dia falo dela. Enfim, repeti o ano, e terminei o segundo grau no ano seguinte (1998). Sim, eu sou velho desse tanto...

Entrar na universidade foi outra odisséia: três vestibulares, três anos entre trabalho e estudos e namoros e desencontros. De estável na minha vida, só mesmo o RPG. O relacionamento que eu desenvolvi com esse jogo superou edições, gostos e algumas pessoas. Enquanto o AD&D durou, eu joguei com aquele Guerreiro/Mago. Ou seja, aposentei-o em 2001. Era um personagem já incrivelmente poderoso, mas que ainda me cativava muito, porque superara muitos desafios, muitas adversidades, sempre contando com o apoio de seus amigos (os personagens dos meus amigos). Em sua evolução, pude acrescentar o kit de bladesinger (Trovador da Lâmina) de AD&D, quer era realmente muito poderoso. A história daquele elfo bladesinger tornou-se ainda mais rica ao longo do tempo...

Eu sempre soube separar a fantasia da realidade, mas quando o seu personagem torna-se o líder planetário da primeira linha de defesa contra um exército de invasores interplanares... você se deixa carregar. É algo grandioso demais, bonito demais, e quando você começa a interpretar ao invés de rolar os dados, você realmente vê o potencial da personalidade de um indivíduo. em seu personagem, e começa a se perguntar: e se essa pessoa realmente existisse? Então, ao invés de ordenar movimentos de tropas, ataques-surpresa, evacuações e ataques suicidas, eu interpretava um indivíduo compromissado com a sobrevivência dos dois lados (que é o que , na minha opinião, um indivíduo que realmente existisse tentaria: ganhar a guerra sem levá-la até o último soldado). Eu falhei, mas nem por isso foi o fim do mundo. O mundo continuou, a história continuou, outros desafios (menores e, por vezes, maiores) surgiram... assim como é na vida.

Agora, dou um salto de 10 anos no tempo, e me vejo em 2009, aos 29 anos de idade (30 em outubro), e vejo minha vida cercada de adversidades: ainda depender dos pais, estar longe de meus amigos, não ter mais como jogar um RPG, agarrado em uma graduação que parece não ter fim... e, hoje, agradeço a Deus por ter colocado o RPG na minha vida, pois ele me ensinou a abstrair certas adversidades, e me concentrar naquilo que realmente pode ser feito.

Pode parecer papo de autoajuda... mas qualquer pessoa que pare para pensar e se veja em uma situação como essa, onde a distância entre o que você quer e o que você tem faz com que você se sinta tão pequeno quanto um grão de sal, como se você estivesse sozinho no meio de um oceano, onde não se vê o ponto de saída e nem o ponto de chegada... qualquer pessoa perderia a cabeça.

... exceto se essa pessoa já foi um elfo bladesinger.

E.