domingo, abril 05, 2009

A FORJA DA VOTADE DE FERRO (ARÛK-THAR-NOGAR)

Região: Província das Terras Novas, Oeste do Reino Humano de Lenara, Centro-Norte do continente de Azelon.

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INTRODUÇÃO


A esterilidade do Rio Turov, apesar de plenamente conhecida pelos habitantes da cidade homônima, sempre desconcerta os visitantes, em especial os aventureiros. Peixes, sapos, musgos ou algas, nada disso pode ser encontrado no rio: ele é límpido e cristalino, mas suas águas são como mortas.

Nos últimos 50 anos, algumas pessoas realizaram expedições em busca da nascente do rio, mas ela jamais foi encontrada. No máximo, estas expedições trouxeram relatos da intensa presença goblinóide na Serra das Carcaças, onde os humanos acreditam estar a nascente do rio.

Aqui direi sobre a história daquele rio, sobre o que ocorreu muito antes da chegada dos humanos a estas terras, sobre o que os caethir tentaram (e conseguiram) esconder por mais de um milênio, e pelo que move muitas das intolerâncias entre os antigos orims, os reclusos caethir e os recém-libertos gnomos e halflings.


OS HUMANOS E O RIO TUROV


Várias expedições ainda partem da cidade de Turov, antiga capital da Província das Terras Novas, em direção oposta à nascente do Rio Turov. Acompanhando o fluxo do rio, todas elas acabam aos pés da Serra das Chaminés, onde o Rio Turov finda em um sumidouro. Além deste sumidouro, as montanhas da região reservam aos visitantes uma paisagem rara: suas paredes escarpadas culminam em aberturas de variadas formas e dimensões, a partir das quais escapa constantemente um vapor branco como o leite, que escoa suavemente pelas encostas e, já próximo ao sopé das montanhas, esparrama-se e desvanece.

À noite, a visão é ainda mais cativante: pequenas fagulhas prateadas e douradas surgem em meio às brumas, bailam em meio a elas, e logo desaparecem em um pequeno clarão. Muitos nobres, comerciantes e outras pessoas abastadas vêm regularmente ao local apenas para apreciar a beleza do fenômeno, permanecendo na região por uma semana ou mais. Essas excursões são sempre escoltadas por mercenários de variadas capacidades, alguns dos quais percorrem a região há anos. Sempre trazem consigo arcos, bestas, zarabatanas e outras armas de ataque à distância, além de farta munição: as brumas em si são inofensivas, mas os grifos que habitam os cumes da Serra das Chaminés utilizam-nas para as mais engenhosas e eficientes emboscadas. Além disso, não raro alguns visitantes são vítimas de ataques de bandoleiros, assassinos e outros malfeitores... todos são prontamente debelados.


POR DENTRO DAS MONTANHAS


Tantos atrativos acerca da superfície e do topo da Serra das Chaminés bastariam para atrair a atenção dos aventureiros mais destemidos e curiosos... mas os segredos contidos nos subterrâneos, se descobertos ou mesmo imaginados, atrairão toda a sorte de pessoa para a região. Apesar de abandonados e inundados há milênios, os magníficos salões e galerias que percorrem aquelas entranhas guardam muitas memórias e registros ancestrais, alguns tão antigos que precedem a cronologia de muitos reinos.


HÁ MUITO TEMPO ATRÁS...


No começo, Arûk-Thar-Nogar era apenas mais um dos vários postos avançados de um grupo de aventureiros orims, conhecidos como “Os Seis Martelos”. Era uma caverna natural, esculpida em calcário, com uma entrada tão discreta que uma pessoa poderia estar a dez passos dali e não percebê-la. Seu primeiro salão interno, ao contrário, era amplo e plano, um oásis dentro de uma floresta selvagem. Era o local ideal para repousar e estocar recursos.

Em um determinado momento, Os Seis Martelos decidiram expandir os salões e abrir um caminho até o topo da montanha, criando um posto de observação. Foi durante essa empreitada que eles descobriram na caverna aquilo que os orims chamam de “caerne”: o local onde o espírito da montanha pode ser despertado e contactado, o local onde o Plano Elemental da Terra toca o este mundo. Segundo suas crenças, este mundo fora criado pelas quatro forças elementais que, após concluírem o trabalho, partiram para seus respectivos planos de origem, marcando o local caso necessitassem retornar. Portanto, aquela caverna marcava o local onde as forças elementais da terra haviam “fechado a porta” após criar as montanhas.


DO ESCONDERIJO À FORJA


Utilizando preces em favor de Kázir (o elemental da terra que inspirou a deusa Ronukra'a a criar os orims), Os Seis Martelos reabriram o portal, convidando as forças elementais a retornarem para a caverna e auxiliá-los na defesa e aprimoramento do local. Sempre gentis, os elementais da terra aceitaram o convite, impondo uma única condição: que a passagem aos planos elementais permanecessem sob sua vontade. Os orims aceitaram prontamente.

Nos duzentos anos seguintes, Os Seis Martelos prosperariam como poucos poderiam acreditar, e a sua riqueza já seria maior que o tesouro das maiores cidades de seu povo. Os elementais traziam metais raros das entranhas do mundo aos orims, que requisitavam especialmente cobre, ouro, platina, prata, estanho, mercúrio e até mesmo adamante e mithril. Similarmente, gemas (de ágatas à diamantes) eram trazidas e cobriam salões inteiros. Os aventureiros, gradualmente, abandonaram seus outros postos avançados e esconderijos, concentrando-se naquele lugar que logo viria a ser como uma segunda casa.

As aventuras dos Seis Martelos logo passaram a servir unicamente para mascarar os lucros incessantes obtidos em Arûk-Thar-Nogar, e esta tarefa exigia dedicação integral. O grupo de orims enfrentou várias “missões suicidas”, dúzias de “caçadas em terras longínquas”, trabalhou mais de uma vez em prol das populações de várias cidades nas fronteiras com as florestas à Leste e ainda muitas outras atividades, apenas para justificar seus longos períodos de afastamento da civilização... e embora nunca tenham sequer exagerado seus feitos e proezas, Os Seis Martelos tornaram-se um grupo de aventureiros famoso por financiar expedições e encontrar tesouros perdidos, além de agirem como financiadores de artistas, artesãos, sábios, engenheiros e líderes de exércitos. O seu dinheiro alcançava pessoas de praticamente todas as cidades dos orims.


O INÍCIO DA ERA DE OURO


Eventualmente, Os Seis Martelos, então mestres de Arûk-Thar-Nogar, começaram a morrer de velhice. Um a um, eles foram sepultados na forja, juntamente às suas riquezas individuais, armas, símbolos de poder e várias obras artístico-literárias que descreviam suas conquistas em vida. Quando o último deles percebeu que não viveria para ver o final daquele ano, ele requisitou uma audiência com o Patrono dos doze clãs, Marndi. A este Patrono ele então revelou tudo sobre Arûk-Thar-Nogar, entregou o controle e a responsabilidade sobre a forja e os elementais. Por fim, o último aventureiro que integrara Os Seis Martelos pediu que, quando sua hora chegasse, fosse sepultado ali, a exemplo de seus antigos companheiros. Pediu também que aquele local de descanso fosse finalmente revelado às famílias dos aventureiros, que então poderiam visitar-lhes quando quisessem.

O Patrono Marndi cumpriu o acordo à risca, e fez muito mais: ampliou o contato com os elementais da terra, requisitando deles que o ajudassem a enriquecer não a um grupo de orims, mas a todos aqueles que compunham os doze clãs. Os elementais da terra, sempre gentis, concordaram de imediato, e mais de cem deles dispuseram-se a ajudar onde antes havia apenas oito. Aliado a um volume estratosférico de minérios, gemas e (agora) mármores, granitos, carvão e outras rochas e minerais, o Patrono Marndi ordenou aos seus sacerdotes que erigissem um turíbulo, a fim de convocar forças elementais do fogo para ajudar na expansão da forja. Ainda que enciumados pela presença prévia dos elementais da terra, os elementais do fogo acolheram com muito prazer a oportunidade de aquecer até à fervura os metais mais puros e nobres à sua disposição. Se a princípio o seu trabalho era forçado pelas poderosas forças místicas utilizadas para convocá-los, em menos de cinco anos tais encantamentos foram removidos, e mais e mais elementais do fogo surgiam e prontificavam-se a aquecer, queimar, derreter, ferver, fundir e estorrar o que quer que fosse... sua atividade era tanta que muitos “acidentes” começaram a ocorrer na forja.

Passados trinta anos, Marndi não era mais o Patrono de doze clãs, mas sim de trinta e seis. Ele forjara uma república coberta de mármore e ônix, cuja prosperidade vencera o isolamento das montanhas, indo bater às portas dos principados élficos ao Sul. Acordos comerciais e militares logo foram firmados e, quando os gnomos e halflings das terras a Norte e Oeste propuseram aos orims a unificação de seus domínios (planícies, colinas e montanhas), iniciou-se um período de cooperação e prosperidade sem precedentes. Então, quando as coisas pareciam não poder melhorar, o Patrono Marndi tomou uma atitude arriscada e arrojada: ele não apenas revelou às outras raças a existência de Arûk-Thar-Nogar, como ainda permitiu aos príncipes elfos (Caethir, Alantir e Adarii), aos gnomos e aos halflings que lá se instalassem e usufruíssem dos recursos inesgotáveis ali disponíveis. Pela primeira vez desde sua descoberta, a Forja da Vontade de Ferro operava em sua plena capacidade, e foi com imenso júbilo que os elementais da terra e do fogo estabeleceram verdadeiras cidades dentro da forja, abraçando genuinamente o desejo de prosperidade conjunta e coletiva dos orims, aprendendo a tolerar a presença das outras raças. Marndi morreria de velhice três séculos depois, sendo sepultado ao lado dos aventureiros que fundaram a Grande Forja.


A QUEDA DA FORJA


Pouco mais de novecentos anos depois da morte de Marndi, quando todas as moedas dos orims eram cunhadas em platina, quando os gnomos começavam a desvendar os segredos da alquimia, quando os halflings espalhavam as festividades ao longo de praticamente todo o ano... quando tudo ia bem, irrompeu uma guerra entre os elfos. Os motivos foram desavenças internas entre os três clãs: Caethir (os artesãos), Alantir (os guerreiros) e Adarii (os espiritualistas) passaram então a ser as denominações das castas, cada uma liderada por um príncipe, e o termo “elfo”, que designava o conjunto dessas castas, foi banido: não haveria mais essa unidade entre elas. Infelizmente, devido aos intensos laços desenvolvidos com as três castas ao longo de um milênio de convivência próxima, as outras raças foram dragadas para dentro do conflito, que tomou proporções continentais. Os orims aliaram-se aos caethir, os gnomos aos adarii e os halflings aos alantir.

Os detalhes da guerra pertencem a uma outra história, mas é importante falar sobre “O Estratagema”, que foi o plano de guerra que deu a vitória aos caethir.

Pouco antes da guerra irromper, os caethir trabalhavam em um grande túnel, que ligaria a Forja da Vontade de Ferro às suas terras (uma distância de quase uma centena de quilômetros). Este túnel apresentava um suave declive, sendo a porção mais elevada na forja, e percorria sempre o topo de um conjunto de colinas suaves, nunca a mais de cinco metros de profundidade da superfície. A finalidade inicial desse túnel foi esquecida, mas o uso que se faria dele nunca seria esquecido.

A Forja da Vontade de Ferro era o centro militar dos três clãs e de seus aliados, e todos protegiam-na com suas melhores tropas e armas. Assim sendo, os caethir desenvolveram um plano letal: convocariam as forças elementais da água e do ar e, a partir de suas terras, desviariam o curso de um rio, fazendo-o correr por dentro do túnel inacabado. Ainda que “morro acima”, os elementais seriam poderosos o suficiente para atingir os salões da forja... e, quando lá chegassem, poriam fim a todos os inimigos. Coincidentemente, os salões reservados aos caethir ocupavam a porção mais elevada da Grande Forja, e portanto a água escorreria para os salões inferiores, prejudicando um pouco aos caethir e grandemente “aos outros”.

O “Estratagema” fora então executado, mas os caethir incorreram em um pequeno erro: eles acreditavam ter as forças elementais da água e da terra sob controle, podendo então interromper o ataque quando quisessem. E, em certa medida, eles estavam corretos... até o momento em que o primeiro respingo caiu sobre um elemental do fogo. A partir dali, as forças elementais convocadas pelos caethir tomaram ciência da presença de seus inimigos naturais, e então iniciaram uma guerra própria: extinguir os elementais do fogo e da terra da forja. Todos eles.

O que se seguiu foi então um massacre abafado pelas espessas paredes da Forja da Vontade de Ferro. A água passou a fluir com mais e mais intensidade, o teto do túnel desabou e fora arrastado para dentro da forja, formando o que é hoje o “Rio Turov”, que ainda corre ao contrário do que deveria, ainda impulsionado por aqueles elementais da água e do ar.

Os orims, que postaram suas tropas nas saídas da forja, tiveram simplesmente de impedir a passagem do inimigo, mas assombraram-se ao ver a violência da água que logo chegou aos seus pés. E se ali estava inundado... toda a forja estava perdida.

Estima-se que mais de dez mil soldados dos três clãs pereceram ali... a quantidade de tropas de gnomos e halflings mortos não era menor. Mas a maioria, a imensa maioria de mortos, era composta por comerciantes, ferreiros, armeiros, mineradores, joalheiros, ourives, escudeiros, recrutas e todos os outros que ali viviam, fossem eles elfos, orims, gnomos ou halflings.

Não se pretende falar aqui sobre as diversas repercussões desse evento, mas é importante dizer algumas coisas.

Apesar de perfeitamente executado, o estratagema caethir repercutiu de forma inesperada: Arûk-Thar-Nogar eram dentre muitas outras coisas, o coração militar das três castas, a maior fonte de riquezas e armas para todas as raças. Com a completa inundação dos salões da Forja, de um dia para o outro todos os exércitos perderam suas fontes de suprimentos e seu centro de comando. Foi quando a guerra tomou uma face perniciosa, e os três exércitos élficos passaram a saquear as terras dos gnomos, halflings e orims. Tal história merece capítulo à parte, e será contata em uma outra oportunidade. Da mesma forma, o destino dos elfos alantir e adarii, que nunca mais foram vistos nas florestas de Azelon, receberá um relato próprio. E muitas, muitas outras histórias afetadas por este evento serão ainda contadas, em seu devido tempo.


OS DIAS ATUAIS DA FORJA


Não se sabe exatamente a quanto tempo ocorreu a inundação de Arûk-Thar-Nogar (ou “A Forja da Vontade de Ferro” no idioma dos humanos que hoje habitam suas proximidades) . O orim mais velho que conhece a história desse evento tem hoje mais de quatrocentos anos de idade, o que é equivalente à idade do reino de Lenara. Este orim afirma que o avô do seu avô foi um dos soldados que participaram do “Estratagema”, o que impõe um período de mais de dois mil anos passados desde esse evento.

Vários contatos foram realizados com os elementais da Forja, da nascente do Rio Turov e dos planos exteriores, e ao que parece as forças da terra e do fogo ainda tentam repelir “os invasores” da água e do ar. Estes últimos orgulham-se de ter dissolvido até mesmo os ossos dos antigos habitantes da forja, sejam eles orims, elfos, gnomos ou halflings. Contudo, aparentemente não conseguiram fazer o mesmo com os salões, ferramentas, utensílios, armas e outros artefatos contidos na forja. A isso, os elementais da terra e do fogo dizem ser os responsáveis: eles ainda esperam pelo dia em que os orims voltarão àqueles salões, “trazendo consigo o ecoar de suas vozes, a familiaridade de seus passos e a sinfonia de sus ferramentas”. Como os orims sempre cumpriram sua parte do acordo, os elementais sentem-se obrigados a fazer sua parte: ajudar na defesa da forja, protegendo-a dos invasores.

Os elementais da terra e do fogo também aguardam avidamente pela chance de contactar a casta élfica dos caethir (ou qualquer uma das outras duas, já que foi o conflito entre eles que culminou no “estratagema”), para enfim levar aos salões deles uma chuva de fogo e enxofre, e finalmente saciar uma vingança que já esperou dois mil anos e ainda faz com que Kerep e Latak, os “prefeitos” do fogo e da terra da Forja, crepitem e trovejem de modo ensurdecedor.

De todos os salões da Forja da Vontade de Ferro, os setores élficos são os únicos que apresentam estruturas deformadas, estátuas retorcidas, painéis e entalhes como que derretidos e outras depredações, especialmente naquelas porções que eram controlados pelos caethir. É ali que os elementais da terra e do fogo treinam e praticam os métodos de sua vingança, externando sua mágoa e seu ódio.

Recuperar os salões seria relativamente fácil: bastaria desviar-se o curso do “Rio Turov”... no entanto ele ainda é controlado pelos elementais da água e do ar: suas águas são estéreis justamente porque tais elementais infundem nela o propósito de sufocar, matar, eliminar, apagar e remover qualquer chama ou corpo. Se, contudo, uma porção desse líquido é removida de dentro do curso d'água, após uma semana de espera aquela porção torna-se livre das amarguras e ressentimentos dos elementais da água e do ar, tornando-se similar à água de qualquer nascente; antes desse período, contudo, ela permanece contaminada, com um gosto desagradável e inaproveitável por qualquer ser vivo. Em suma: interferir com o curso do rio acarretaria na fúria das forças elementais que nele destilam sua vilania, que é ainda mais poderosa que as forças elementais contidas ainda hoje na Forja (se não o fossem, aqueles nobres salões não permaneceriam ainda alagados como estão).

Contudo, a recompensa por tal ato seria fabulosa: só para começar, os elementais da terra continuaram a extrair rochas e gemas das entranhas do mundo, e sua coleção de diamantes, sozinha, é suficiente para comprar todo o Reino de Lenara...


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E.