domingo, novembro 28, 2010

Saudades do Mineirão

Eu acompanho futebol desde a década de 1980... futebol, como um esporte, sempre me cativou. Nunca entendia muito bem essa necessidade de se escolher um único time para se torcer, quando havia tantos, e tão diferentes em seu estilo de jogo, disputando diferentes campeonatos, em estados, regiões e países diferentes. Com o tempo, já na década de 1990, acabei por escolher um time, que representava aquilo que eu mais admirava no futebol. Mas isso é assunto para outra hora. Ou para hora nenhuma.

Entrei no Mineirão pela primeira vez em 1994, e não foi por conta de um jogo de futebol, e sim para fazer uma prova de seleção do COLTEC. Esse "Vestibular" foi no dia seguinte a um Cruzeiro x Atlético, de modo que vestígios do jogo ainda podiam ser observados. Copos eram varridos na geral, às centenas. A arquibancada, preguenta, dava pistas de quanta cerveja fora desperdiçada. Um cheiro de tropeiro e torresmo e outras guloseimas ainda podia ser sentido. Em um canto, um palito de picolé e um copo de água mineral pela metade indicava que, talvez, houvesse crianças naquele setor.

E eu ali, tentando fazer a prova.

Após abstrair o cheiro, o chiclete no tênis, o desconforto da arquibancada e os odores do local, uma coisa ainda distraía minha concentração: o gramado. E não era só o gramado, eram as cabines, o fosso, o placar que insistia em ficar apagado. Qual fora o resultado do jogo, mesmo? E, mais importante, de que lado da torcida eu estava sentado? Ainda hoje, não sei... tenho a impressão de que fiquei do lado da torcida do Atlético-MG. O famoso "lado da lagoa".

Desnecessário dizer, eu não passei na prova do COLTEC.

E eu demorei a voltar ao Mineirão. Não voltara naquele ano, quando o Cruzeiro fora campeão mineiro. Voltei só em 1995, quando Ronaldinho não mais jogava por essas paragens, e o time estava em crise... ameaçado de rebaixamento. Fui ao Mineirão, religiosamente, em 1996 e 1997. Vi o gol de falta no Cruzeiro 1 x 1 Palmeiras, jogo de ida da final da Copa do Brasil (gol de falta que eu cantei, e quase me fez levar uma surra na arquibancada), vi o Cruzeiro 5 x 3 Botafogo, ao lado do meu pai (embora ele não se lembre), e vi a final da Libertadores em 1997, Cruzeiro 1 x 0 Sporting Cristal, e ainda me lembro daquela bola espirrada entre as luvas do goleiro e o gramado, que rolou, preguiçosa, para o fundo da rede. Meh, nem foi para o fundo, foi mais para o canto, porque ela enviezou, e, maliciosamente, quase sai pela linha de fundo. Ainda assim, entrou. Guardo o canhoto do ingresso desse jogo até hoje (naquele tempo, ele era de papel).

Não fui a muitos clássicos, especialmente após 1999. A ideia de que eu posso ir de ingresso na mão e voltar com uma etiqueta no dedo me abala. Nem quero pensar no efeito que teria na minha família.

Nos anos seguintes, vi pouca coisa. Vi os títulos da Sul-Minas, vi ótimos jogos e, a partir de 2003, ano em que eu vi pouquíssimos jogos, fui pouco a pouco deixando o Mineirão de lado. A grana rareou, o preço ingresso foi para a estratosfera (e lá permanece, até hoje) e eu tinha muitas coisas para resolver. Mas eu nunca deixei de pensar no estádio.

Em 2008, sabendo que o estádio seria interditado para reformas, comecei a mudar minha postura. Fui a todos os jogos que pude, mantendo o mesmo ritmo até 2010. Da Libertadores, só não fui à final, pois não consegui ingresso, e ao jogo das oitavas, contra o Boca, pela mesma razão. Nesse ano, fui até no Cruzeiro x América com uma amiga Coelha, só para não perder o jogo.

É engraçado como, realmente, só damos valor a algumas coisas quando perdemo-nas.

Hoje em dia, o antigo Mineirão faz todo o sentido do mundo para mim: ele é um esqueleto, completo com tendões e cartilagens, ávido pela musculatura e pelo sangue que o transportará de seu estado, inanimado, para o status de organismo vivo, pulsante, quente e contumaz. Acolhedor com os de casa, frio contra os "de fora". Era uma armadura, exposta, que dizia "aqui estou, tenho apenas esse tanto a te oferecer, o resto é convosco". E nós, o "convosco", atendíamos. Cantávamos, vaiávamos, torcíamos, xingávamos o juiz, o técnico, o azar... e, nessas horas, era como se o estádio sumisse. Ele era, literalmente, um palco. Não chamava a atenção para si, e sim para os autores e atores. Ninguém se importava de as arquibancadas serem de concreto, de o ângulo ser este ou aquele, de ser difícil de se encontrar um bom lugar na geral... isso não importava.

Para quê cadeira acolchoada, se eu assisto ao jogo de pé?

Torcer para um único time de futebol, para mim, ainda não faz muito sentido. Até porque há muito a se admirar em alguns adversários, pois eles podem expressar forças que seriam benéficas a qualquer outro time, inclusive ao time amado. Comemorei, ontem, o acesso do América-MG à Série A, fiquei feliz com isso. Também torço para que o Atlético-MG não caia: rivalidade é, antes de tudo, exercida. Se eles caem, são dois Cruzeiro x Atlético-MG a menos no ano, e isso é ruim. Agora, torcer para um estádio, para mim, faz todo o sentido do mundo. Me perdoem o Parque do Sabiá, o Ipatingão, a Arena do Jacaré, o Estádio Independência e tantos outros estádios/campos/campinhos que eu conheço, mas eu torço pelo Mineirão. Torço para que ele não vire uma boneca empetecada, para que tenha sim desconfortos e limitações, como sempre teve... de que valem arquibancadas no ângulo ótimo, cabines melhor posicionadas, aparato de segurança ideal, etc etc etc se, no fim, o gramado for aquela coisa infame da Copa do Mundo de 2006? Ou o da Copa de 2010, também longe do ideal?

No antigo Mineirão, torcer fazia sentido. O estádio, o restante do estádio, era o de menos, era apenas o palco, e, durante os jogos, era quase invisível. Você era um alvéolo em um grande pulmão, e o ar que você absorvia vinha daquele gramado, o melhor do Brasil. Já pensou se, em 2000, o André escorregasse na grama e não garantisse, no último minuto, a Copa do Brasil daquele ano? Ou se um "morrinho-artilheiro", às avessas, tirasse o gol do Elivélton em 1997? Sério, cara. Aquela bola entrou por muito pouco...

E.